terça-feira, 13 de março de 2012

A Doce Rubro-Negra

Amigos, os quatro mil tricolores que invadiram Buenos Aires na semana passada estavam dotados de clarividência. Sim, não tenho receio de afirmar que cada um dos fãs do time das três cores que traduzem tradição, ao despencar de toda parte do Brasil para pousar, em êxtase e entusiasmo, na capital portenha, sabia - por uma dessas intuições que só visitam os apaixonados, os revolucionários, os loucos – que o Fluminense venceria o duelo contra o imponente rival xeneize, o temível Boca Juniors.

A massa tem um diferente tipo de raciocínio, o raciocínio da intuição animal, que pressente a hora exata de agir, de se expor e se impor. E foi com esse espírito, de tocha vitoriosa à mão, que fizemos um espetáculo glorioso nas míticas arquibancadas da Bomboneira. Os jornais argentinos, no dia seguinte, em suas manchetes trágicas e maliciosas como a língua do tango, não cansaram de exaltar o time, os craques e a operística participação da hinchada verde, branco e grená.

Relembro agora de nossa façanha recente, pois, ontem, recebi um e-mail da Doce Rubro-Negra. Todos sabem da rivalidade familiar, feroz, que existe entre Flamengo e Fluminense. E, também, que são torcidas que agregam toda a gente, são torcidas híbridas, multiétnicas, indo do pé-rapado mais absoluto ao empedernido tubarão federal. Contudo, jamais se cantou a doçura da torcida flamenguista. Sempre se louvou a raça, a empáfia, o fanatismo, a intransigência, a gana dos urubus.

Mas eis que surge uma Doce Rubro-Negra! Sim, amigos, uma flamenguista com ares tricolores! Que me enviou uma mensagem com as seguintes palavras: “Sr. Nelson, com aquele placar e com aquela beleza de torcida, até eu, que sou flamengo, dei parabéns aos tricolores! Aliás, parabéns!” Que tom e que palavras de compreensão cósmica da paixão clubística, Doce Rubro-Negra! Flamengo e Fluminense são - verdade para se repetir mil vezes - os Irmãos Karamazov do futebol, se amam e se odeiam igualmente!

Texto produzido para o blog: http://nazagaenasartes.wordpress.com/

sexta-feira, 9 de março de 2012

Bombonerazzo

Amigos, outro dia, conversando com o meu amigo Atleticano Melancólico, ouvi do mineiro, solidário não apenas no câncer, uma frase fulminante, vinda de um pensamento em forma de raio que cruzou, de modo inesperado, as brumas de melancolia constante que rondam suas idéias:

- Não acredito! O Sr. está me dizendo que vai parar sua vida para ver o Fluminense jogar contra o Nova Iguaçu, num sábado à noite, pela Taça Rio? O Flu já está na final do Carioca, esse jogo não vale nada! Além do mais, os Campeonatos Regionais estão falidos! Se não for jogo entre dois times grandes, não há mais graça nenhuma na competição!

Respondi, de bate - pronto, para o romântico das Alterosas, atento à alteração que minha paixão pelo tricolor sagrado causara em seu humor: “todo e qualquer jogo do Fluminense me interessa! Pode ser contra o poderoso Barcelona ou contra o pífio Íbis! O fato de o Tricolor das Laranjeiras surgir nos gramados já é um epifenômeno, uma aparição divina! O mundo silencia, bestificado, para apreciar a entrada em campo, sempre exuberante, do time da instituição centenária!”

O Atleticano Melancólico, então, esboçou um sorriso à Mona Lisa, breve e significativo, como se tivessem sido desvelados em sua mente segredos enigmáticos, após a audição de algumas poucas palavras essenciais. Olhou para o nada por alguns instantes e, num gesto perdido no vácuo, se despediu de mim, seguindo pelas ruas da cidade com seu passo lento, de quem carrega um peso imenso, insondável e indefinível, nas costas.

Eu me lembrei desse episódio enquanto dava meu passeio de final de tarde na Lagoa Rodrigues de Freitas; e, diante de outra aparição celeste tão poderosa como o Flu, silenciava em êxtase vendo o sol morrer atrás das montanhas, dando ao espelho d’água da Lagoa de Sacopenapã – que significa “das raízes chatas” em tupi -, tons amarelo-avermelhados únicos, brilhantes, divinais. O que me levou, por mais um desses mistérios do inconsciente, a relembrar as palavras marcantes do Filósofo Botocudo, expressas em nosso primeiro encontro ocasional num supermercado da cidade: “Torcer pelo Tricolor das Laranjeiras é torcer por uma potência da natureza, imprevisível e fascinante, sempre abalando, com passos de maremoto, os limites da medida humana.”

E, por uma dessas ironias do destino, ao chegar no Parque dos Patins, me deparo com uma cena insólita, que só, pouco a pouco, ao me aproximar do pequeno grupo, se desvela aos meus olhos, ou melhor, aos meus ouvidos, pois ouço a voz inconfundível do sábio das selvas tropicais, o Filósofo Botocudo. Ao seu lado estava o Atleticano Melancólico, parado num quiosque, tomando água de coco. A aparição dos dois personagens, após minhas lembranças de situações em que eles participavam, faz parte dessas coisas da vida que jamais poderemos explicar. Mas quem precisa de explicações quando estamos falando de forças cósmicas, metafísicas, que somente ocorrem entre os verdadeiros fãs delirantes, dominados por suas paixões clubísticas?

O xamã do tronco lingüístico Macro-Jê estava eufórico! Tinha acabado de voltar de Buenos Aires, onde fora acompanhar a saga da vitória tricolor no bairro de La Boca, junto com os 4 mil tricolores que saíram de toda parte do Brasil para presenciar o jogão histórico na capital portenha. Usando a indefectível calça jeans, sem camisa, os botoques étnicos, colares e cocares de penas, o corpo untado de jenipapo e urucum, com um escapulário com as cores do Flu sobre os ombros, mostrava para o Atleticano Melancólico, em seu Tablet, os vídeos e fotos que fizera durante a viagem. A figura pós-moderna do sábio de botoque discursava, categórico:

- O Fluminense devorou o Boca em plena Bomboneira! Como os verdadeiros brasileiros, as tribos indígenas que já se encontravam aqui há 12 mil anos antes da chegada dos portugueses, o Tricolor fez um ritual antropofágico para adquirir as forças do inimigo. A partir de agora, depois de comer o time dos xeneizes, ficará mais forte ainda! Os espíritos estão me dizendo que o século XXI será do Flu! O próximo papão de títulos da América e do mundo!

O Atleticano Melancólico olhava as imagens com um olhar distante, perdido, mas, de algum modo, feliz por estar ali. Quando me viram chegar, voltaram-se para me cumprimentar pela vitoria consagradora do Flu naquele estádio que transforma os bosteiros, como também são chamados os torcedores do Boca, em vampiros e zumbis possuídos, pulando e cantando nas catacumbas, famintos por vitórias, movidos pela paixão boquense.

De imediato, teci loas épicas ao mago Deco. Que jogadoraço! As contusões seguidas, no ano passado, não nos permitiram apreciar e compreender isso! Não é à toa que carrega o número 20 às costas: é o arquetípico craque da 10, só que em dobro! A bola vem para os seus pés e é acariciada com toques leves e sutis. Parece bola de encher de festa de criança, direcionada para o canto do campo que ele quiser, indo pousar, precisa e silenciosa, no corpo do companheiro de time, escolhido pela sorte para receber o presente de seus passes magistrais. E foi um desses passes/ traços digno de um Monet que pintou o primeiro gol Tricolor na Bomboneira - mais doce e abençoada do que nunca, maravilhada, na verdade, com a presença encantatório, guerreira e elegante, da massa tricolor.

A jogada tem início com uma falta sofrida por Tiago Neves, aos 8 minutos do primeiro tempo, na intermediária esquerda do ataque do Flu. Deco avisa que a bola é dele e manda Fred para a área. Então, começa o show, o primor de arte/ artesania psicofísica. O Mago dá um daqueles seus toques feiticeiros na pelota, que vai morosa, com movimentos de aristocrata displicente, e encontra Fred, o artilheiro do engenho e arte. Este, após se desgarrar de um zagueiro chiclete, dá uma raspada, quase sem alterar a fluidez de corrente de ar da trajetória da bola, com o lado direito da cabeça. O goleiro se espanta com tamanha beleza e domínio técnico, e não consegue pegar a redonda, que passa calma, entediada, esbarrando em seu corpo contorcido, e vai morrer no fundo das redes.

Nem com o 1 a 0 a torcida xeneize se cala, mas podemos ouvir, pela tevê , ao fundo, o grito delirante dos fãs do único tricolor do planeta – pois os outros são times de três cores. O Fluminense, que já vinha amarrando o Boca desde o princípio do jogo, não deixando os argentinos pressionarem, neutralizando o seu requintado toque de bola, é agraciado com um golaço, numa jogada nascida dos pés – e cabeças – de seus dois principais craques. Contudo, como é um péssimo costume seu, após fazer um a zero, o Tricolor se fecha mais na defesa. Somente no final do primeiro tempo os bosteiros conseguem realizar o sufoco que sua torcida exigia, e que o Flu, com equilíbrio, impedia.

Foi então que surgiu o terceiro herói dessa batalha de gigantes latino-americanos. Cavalieri, o goleiro cool, a reencarnação não passional do imenso Castilho, o maior goalkeeper tricolor de todos os tempos, mostra as suas armas, e as utiliza com técnica e sorte, pois, qualquer goleiro tem que ter, acima de tudo, uma ajuda generosa da sorte. Foram cinco defesas memoráveis, em menos de 2 minutos, apresentando segurança e precisão em diferentes tipos de exigência: de tiros a queima-roupa, a média distância, da grande área. Todas as defesas exigiam reflexo, agilidade e antecipação de raciocínio diante da jogada. Cavalieri foi um samurai tricolor dançando um balé cubista, exato, intransponível. Só com esse espírito pode ficar imune aos ensurdecedores gritos/ cantos dos barras-bravas da arquifamosa hinchada La 12, posicionada no primeiro tempo bem às suas costas no estádio que tem nome de caixa de bombons.

No entanto, nos primeiros minutos do segundo tempo, o Boca consegue seu intento: empata o jogo num lance em que Cavalieri não teve a mínima culpa. Mas as cores da noite, na mais famosa caixa de bombons arquitetônica do mundo, a Bomboneira portenha, eram, definitivamente, verde, branco e grená. Antes que o time xeneize pudesse cafungar em nosso cangote em busca da virada do placar, o Tricolor mais amado do planeta consegue fazer o seu mítico segundo gol.

Após uma cobrança de tiro de meta de Cavalieri, Fred escora a bola de cabeça para o garoto Wellington Nem, na zona esquerda do ataque do Flu. O Messi de Xerém dá um drible rápido e impetuoso sobre o marcador e cruza no outro lado da área, para a chegada preciosa e surpreendente do Templário Deco, guerreiro da Cruzada Tricolor rumo à Terra Sagrada de Yokohama. O Mago pega na bola de chapa, sem dominá-la, de primeira. A redonda vem, nem muito forte nem muito fraca, mas intensa, rápida, a ponto de desbaratar o goleiro adversário, passando por debaixo de seu corpo e indo morrer, absoluta, no fundo das redes. 2 a 1 para o Flu , placar que se manterá até o final da peleja. Momento em que os tricolores presentes entram em êxtase cósmica, iluminando de felicidade a noite da capital portenha que, certamente, será longuíssima para os cariocas.

O filósofo botocudo, respeitoso, até então, diante de meu estado delirante pelo Flu, para contrabalançar meu entusiasmo, resolve lançar mão de estatísticas para ratificar e engrandecer a proeza que foi a nossa vitória santa:

- Em trinta e duas partidas contra brasileiros na Libertadores, o Boca só perdera três vezes, antes de nós, para Santos, Cruzeiro e Paissandu. Em 14 finais e semifinais contra brasileiro, o time bosteiro apenas foi desclassificado duas vezes: pelo Santos de Pelé e pelo Flu de Tiago Silva, em 2008. O Boca Juniors estava a 36 partidas sem perder, há quase um ano, antes da derrota de ontem para o Flu...

Nesse momento, lembro-me de perguntar se ele havia encontrado em Baires alguns de nossos amigos, tricolores de antena e raiz. O Filósofo das selvas tropicais disse que sim, que estavam todos lá: o Velho do Restelo, saído das páginas de Os Lusíadas; a Viúva Botafoguense, de braços dados com o seu falecido, o Tricolor de Lábios Roxos; a Loura Indignada, que pegou o Latin Lover no flagra, traindo ela mais uma vez com a Amante Flamenguista; o Negão “de ventas raciais”, com seu casal de filhos lindos...

Então, fiz a pergunta que deveria ter calado. Perguntei ao Filósofo Botocudo se ele fora sozinho, se conhecera alguém lá, como foi a noite dele em B.A. etc. O sábio pós-moderno, mudando imediatamente de postura, gelou. Olhou para o infinito e disse que tinha se apaixonado perdidamente por uma mulher que apenas vira as imagens em outdoors e jornais, uma índia linda que não conseguiu encontrar, depois de passar a noite em claro procurando a cunhã. Disse que ela tinha uns lábios lindos, sobressalentes, que ele afirmava que não eram efeitos de botox e, sim, de botoque. O nome dela: Cristina Fernández de Kirchner...

Agora sim, ficara claro porque o Filósofo Botocudo estava andando com o Atleticano Melancólico. Ambos estavam vivendo a coita amorosa, a dor da saudade, a tristeza dolorosa da ausência da mulher amada. Me despedi dos dois, falando que tudo ficaria bem, e que o Fluminense voltaria a jogar, muito em breve, em Buenos Aires. Os sons e sentidos dessa minha última frase, por um instante, fizeram com que o fundo da retina do Filósofo se dilatasse como a de um jaguar que acabara de ver uma presa; mas, logo a seguir, os olhos do sábio tropical voltaram a ficar mortiços, embaçados, saudosos...